Livro de poesia premiado pela Biblioteca Nacional ganha 2ª edição na editora Anticítera

Este livro foi escrito em onze meses. Nasceu em outubro de 2020, da união do meu hiperfoco no aprendizado de formas fixas, sob a orientação do grande poeta João Filho, com a autoimposição de uma regra: a de escrever ao menos um poema por dia, minerando os temas a partir de contemplações da realidade, apreciação de outras artes, como pintura e música, exercícios de tradução de poemas afins e revisitação de memórias.
Quando o arquivo estava quase na metade, em março de 2021, comecei a namorar o poeta Wagner Schadeck e, sob as correntes de energia da embriaguez hormonal da paixão, escrevi mais da metade dos poemas do livro em cerca de 40 dias. Sim, boa parte deste livro possui um muso inspirador.
Esse muso também foi organizador. Agora mesmo, ao escrever estas linhas para prefaciar a segunda edição, recordo das folhas de rascunho impressas, espalhadas em um quarto de hotel em Curitiba, enquanto Wagner e eu tentávamos organizar os poemas por eixos temáticos, não de maneira compartimentada, mas apresentando uma paisagem contínua. Depois, ele entrou em contato com a artista inglesa Angela Chalmers, porque eu havia me apaixonado por um de seus cianótipos, que acabou sendo gentilmente cedido para utilizar na capa do livro.
A alegria é fonte de criatividade — de alta voltagem. A tristeza também. Aliás, o que não pode ser transformado em energia criativa? Um ninho de joão-de-Barro sobre um poste de luz, que traz à memória o boato de que esse pássaro, furnarius rufus, empareda a fêmea infiel na casinha para que morra (Passarinhos); a história verídica de uma noiva belíssima que, após o desaparecimento do marinheiro amado, passou a vender o corpo por poucas moedas e goles de álcool em Puerto Madryn (Luzia do Porto); a memória da vez em que perdi o senso de direção, rodando no estômago de uma onda, aos dez anos (Vênus), ou de quando perdi a voz aos dois anos (Balada da Voz Encontrada); a observação da minha gatinha velha (Mime, in memoriam), ou a visão do meu próprio envelhecimento no espelho (Rubi); o trágico relato de um ente querido que teve de e fresca, e até desesperada (Outubro)… Enfim, cada poema do livro guarda seu aguilhão e seu néctar nas entrelinhas.
A primeira edição de Cães e Astromélias foi lançada em setembro de 2021 e obteve a 3ª colocação no Prêmio Alphonsus de Guimaraens, da Biblioteca Nacional, em 2022, perdendo o primeiro lugar para ninguém menos que Alexei Bueno e o segundo lugar para Carlos Nejar. Dividir o pódio com poetas extremamente renomados, com uma trajetória robusta, certamente me deixou pimpona com meu cavalinho azarão.
Há meses o livro estava esgotado e várias pessoas manifestavam o desejo de lê-lo. Agradeço à Editora Anticítera pela nova edição, levando esses cães para desacomodar jardins alheios e astromélias para adoçar existências (e vice-versa).
Mariana Machado
Santa Maria, 05 de julho de 2025.



“Tudo neste livro é tão grandioso, embora tão simples; tão racional, todavia carregado de emoções tão diversas e tão únicas; tão cheio de sonetos e versos (aparentemente) livres; tão sensorial, tão colorido, tão forte; tão lindo e tão cheio de horrores; tão triste e tão carregado de boas sortes; tão cheio de serenatas, salmos, reflexos, jornadas; olhos enlaçados, margens, sons de nuvens; amargor, caprichos; e tão formal e técnico quanto mais se sentindo leve e livre como toda grande poesia deve ser…”
Silvério Duque
“E é justamente isso que faz Mariana Machado, mais notadamente na primeira parte do livro, cantar o cotidiano, as pequenas misérias, das pequenas e mais arrebatadoras felicidades, as coisas mais cândidas, as crônicas de uma vida doméstica, as singelas memórias da infância e da adolescência por meio de formas evidentemente esculturais e vocabulários sofisticados, burilados, buscados, devidamente pesquisados, sem causar nenhuma impressão dissociativa… […] Dito isso, não deixa de ser espantoso o como [a poeta] consegue incorporar na sua poesia as várias vozes da tradição, as diversas formas de compor um poema, os diversos estilos…”
Jessé de Almeida Primo
“Neste Cães e Astromélias, Mariana Machado oferece‑nos uma poesia de experiência de vida. Através de uma expressão diversa e de variado repertório de formas fixas, em seus versos, notamos confluírem uma expressão forte, intensa, volátil e luminosa, e um sentimento fluido, ligeiro, leve, moroso, diáfano, intimista e pessoal. […] Não seria errado afirmar que sua poesia traz a ferocidade, a fidelidade e o faro certeiro dos cães, sem deixar de ter grossas e profundas raízes e um caule delicado a florescer com a áspera ternura de uma astromélia.”
Wagner Schadeck

Mariana Machado nasceu em 1982, é mãe de Miguel e Rafael, casada com Wagner Schadeck, gaúcha, poetisa, com graduação e mestrado em Artes Visuais. Além de Cães e Astromélias, publicou Entre Mandalas, Espadas e uma Escada Caracol (poesia, 2022) e diversos títulos de literatura infantil꞉ Grandes Histórias Para Pequenos Viajantes (2023); Uma História de Pescador (2023); Cordel de Santa Joana D’Arc (2024) e Furão & Feneca (2025), entre outros.